Arquivos para Maio 12th, 2007

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Adelaide

Maio 12, 2007

Triste Não sei se a partir de certa altura as pessoas deixam de esperar seja o que for. Eu deixei. Esperar o quê, aos quarenta e três anos (1)? Pintar a casa, mudar os móveis, o sofá que vi no centro comercial ali, uma mesa de apoio mais moderna? E quanto a mim? Mudar a cor do cabelo, experimentar umas massagens nas coxas, arranjar-me melhor? Para quem? De vez em quando um homem convida-me para almoçar, por alturas da ementa fita-me de olhos pingados, por alturas do café já nem me fita, não torna a convidar-me. Que terei eu de mal? Um casamento falhado, uma relação falhada com um sujeito casado e que se arrastou anos, um defeitozinho num dente da frente que o dentista se propõe consertar por uma fortuna que não tenho e eu vou adiando com o pretexto da falta de tempo para que não suspeite o dinheiro contadinho: uma tarde por mês uma blusa, uma saia, não as que eu gostava, é claro, coisas mais baratas mas enfim, a vida é o que é….Durante um ano joguei nesses concursos que dão dinheiro, fiz cruzes em números, esperancei-me, não ganhei nada. O mais que ganhei até hoje foi um ramo de flores artificiais numa tômbola de província, na terra da minha mãe. De pano e plástico não valiam um chavo. Sinceramente não sei se na minha idade me apetecia um marido, manias, amuos, exigencias, montes de roupa para lavar, passar a ferro, guardar, um pivete a tabaco por todo o lado. Outras mulheres de certeza, mentiras parvas. Coisas fora do sítio, o jornal da véspera no chão.

O sexo nem muito bom, nem muito mau, uns estremeções rápidos e aí estão eles de costas a dormir. O cheiro do suor que me incomoda.

O vizinho do 2º andar, ao cruzarmo-nos na escada, fica a apreciar-me atrás dos óculos que bem o sinto nas minhas costas. Tem 66 anos e no Inverno, com a humidade, usa uma bengalinha. De maneira que, não espero seja o que for. Janto um iogurte e uma maçã. Há sempre uma das tábuas da cama que protesta. Que quer ela? Se calhar o mesmo que eu, que a deixem tranquila. Por sua vontade deitava-me no sofá com uma manta e os pés de fora a constiparem-se. Na cozinha uso chinelos com pompom, por sou sensível nas extremidades e se não tomo cuidado pingo no nariz, aspirinas, essas misérias. Uma embalagem de lenços de papel inteira que me vejo grega para abrir porque o lado pelo qual se levanta o adesivo se encontra sempre do lado contrário àquele em que o procuro. O vizinho do 2º andar concorda comigo, acha que complicam as coisas de propósito.

66 anos, pensando bem não é muito e  a bengala pode dar um aspecto distinto. Se mudasse a armação dos óculos e vestisse outro tipo de roupa melhorava imenso. Será que a partir de certa altura deixamos de esperar seja o que for? Será que eu deixei aos 43 anos? Porque não mudar a cor do cabelo, experimentar umas massagens nas coxas, arranjar-me melhor? Porque não convidar o vizinho para jantar cá em casa ensopado de borrego, carne assada, sei lá….não iogurtes e maçãs….

É que às vezes as noites são difíceis, acordo, levanto-me, torno a deitar-me, torno a acordar. Sobra-me uma amiga que nunca vejo, parentes no Norte que nunca vejo também e me mandam salpicão no Natal. Interrogo-me se o  salpicão fará mal ao vizinho, se gostará da maneira como arranjei o quarto, se simpatizará com o quadro do naufrágio, um barco à vela contra as rochas e marinheiros a gesticularem.

Comermos salpicão sob as mãos dadas e dali a pouco, como quem não quer a coisa, a minha mão na dele, mais miúda que a minha e um bocadinho humida. De resto, basta olhar o vizinho e percebe-se logo que tem cara de mãos húmidas.  Dantes, só de pensar em mãos húmidas virava-se-me o estomâgo do avesso. Agora aguento, um bocadinho agoniada mas aguento.

Chega daqui a meia hora, aposto que com um perfume ou chocolates que lhe desiquilibraram o orçamento. O borrego também me desiquilibrou o orçamento porém, como se desculparia o meu pai, é uma vez na vida e outra na morte. Escutarei com toda a paciência as histórias compridíssimas dele e hei-de interessar-me e fazer perguntas. Sentir-se-á muito o bigode (detesto bigodes), quando ele beija?

(1) Adaptação do texto de António Lobo Antunes 

  

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Preciso de um Amigo

Maio 12, 2007

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, o seu principal objectivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.