
À Espera….
Outubro 21, 2006E Ele disse que vinha e não apareceu. Não apareceu, pura e simplesmente não apareceu, não disse nada, não quis vir, quis mas desistiu, não teve vontade, teve vontade mas não teve coragem, não veio. E Ela esperou, todo o dia esperou. De manhã esperou com esperança, com um sorriso alegre, saltitava com a certeza da visita, compunha o cabelo, uma visita ao espelho para se certificar do aspecto, olhava para a porta entreaberta, escutava os passos com atenção, as vozes, mais uma visita ao espelho (o cabelo estava bonito!) e chovia e ela impacientava-se e pensava o porquê da demora. Hora do almoço, sem apetite, a ansiedade a atacar, mas a esperança e a certeza ainda firmes, havia de chegar, havia de aparecer, nada de pôr cara triste que os olhos não mentem e perdem o brilho e a boca perde o sorriso e toda a cara cai, fica pesada.A tarde avança, já anoitece cedo mas depois de uma manhã de chuva até abriu o sol, já um sol frio de Inverno, mas trouxe mais luz à tarde. E Ele nada. Passos, começaram a ouvir-se menos, era Sexta-feira o fim-de-semana já se anunciava, todos querem sair à hora ou até mais cedo, como se todos tivessem boas razões para sair, como se fosse impensável não ter necessidade de sair. E a tristeza chegou. Ela já estava escostada à porta, a fazer força para entrar. E tanto pressionou que entrou de rompante, esbaforida, exagerada veio numa dose quase mortal, e sem qualquer problema inundou-A, com o seu visco habitual. Espalhou-se do centro até à extremidade mais pequenina. O coração, esse quase parou e ficou a trabalhar no menor dos limites, a respiração curta, pequena, rápida, os braços ficaram inertes, as pernas moles, os dedos sem reação, o pescoço tombou e a cabeça pesada rolou sobre a mesa de trabalho. Os olhos ficaram parados no tempo, a boca fechada, feia mesmo, a pele baça.Então, Ela deixou-se ficar, como se o Mundo tivesse parado. Ficou em silêncio, ainda deu uma ordem para os olhos se fecharem. Para quê estar de olhos abertos? os olhos eram para Ele, só para Ele.Ela ficou assim até ser noite. A tristeza usurpadora, sentiu-se regalada com tanto espaço e tempo para fazer os seus estragos e ao espreitar a noite sentiu-se capaz e com vontade de se desalojar do corpo dEla, e viscosamente misturou-se com a noite.Ela sentia-se suja, violentada, violada, magoada, mas corajosa juntou os farrapos, colocou a cabeça desconjuntada no pescoço e com uma figurinha anedótica levantou-se, pegou na mala e saiu. Saiu para a noite. Sentiu-lhe o cheiro, com que estava inundada e de forma apática e indiferente deu todos os passos que costumava dar.E o dia passou. E Ela sentiu-se mais velha, ainda mais só. Na verdade, não era uma sensação nova para Ela e com este pensamento resignado, gasto, sujo de tão gasto tentou adormecer.
Ainda bem que criaste um blogue para escrever. Um beijinho
Ando há dias para escrever algo sobre este espectacular texto, mas as palavras não me saem.
A partir da parte da descrição da tristeza, nunca li algo que me tocasse tanto, me deixasse de boca aberta, visualizei tudo, foi uma cena estranhíssima, até vi depois o colocar a cabeça.
Pois eu sei que sou doida, mas mesmo assim, de textos, contos foi o que mais me marcou no sentido positivo,até hoje, na blogosfera.
Gitas!
Fico imensamente feliz, por o texto te ter feito viver sensações,…é para tentar atingir esse “Ideal”, que vamos escrevendo, teimosamente elegemos algumas palavras e ignoramos outras,…
Mas também te quero confessar, que quando vivemos as coisas, conseguimos transcreve-las muito melhor!
Sherazade, esperava ansiosamente a tua visita!
I’m Happy.