Arquivo de Outubro, 2006

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Gravidez na Adolescência

Outubro 31, 2006

Em Portugal a taxa de gravidez na adolescência é de 2,2%. Vários factores poderão ser determinantes para uma gravidez na adolescência, como a classe social, a classe socioeconómica desfavorecida, determinadas etnias, famílias disfuncionais e alguns ambientes de risco (promiscuidade sexual, abuso de drogas). Alguns estudos apontam como factores muito importantes algumas caracteristicas da personalidade da adolescente: baixa auto-estima, dificuldade de expressão e comunicação e introversão.

(in Filhos de Mães Adolescentes de Dulce Oliveira)

 

E a nossa falta de tempo? e a nossa falta de cuidado (porque isto só acontece aos outros)? e o nosso desleixo? e a nossa falta de atenção, para perceber que eles cresceram? e a nossa inércia para dialogar? e o nosso evitar discussões porque achamos que temos direito a um “merecido” descanso?

 Porque não aparecem estas razões nas estatísticas?

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Carta a um Pássaro Azul, que poisa no parapeito da minha janela…

Outubro 27, 2006

passaroazul1.jpgPássaro Azul: 

É tarde, e estou estafada….

Telefonou-me agora o homem com quem vivo, o meu homem, e a nossa relação vazia anda no seu limite, mas egoístamente disse-lhe “que precisava dele”. E aquele homem, que dificilmente terá outra mulher na vida dele, ficou feliz, feliz, de lhe ter dito “que precisava dele” (há tanto tempo, que eu não lhe dizia nada…).E eu? Senti-me ainda mais miserável…..Será que me compreendes, ou me estás a julgar e com toda a razão, a achares-me uma desilusão? Uma mulher igual a tantas,…, mas com uma dose de impaciência exagerada.  E contigo…..?! Ando estranha, digo-te, que tenho claustrofobia e depois caio em mim e vejo, que nesse caso, tenho que arrancar qualquer coisa minha: meio braço, meia perna, um pé, o dedo mindinho….como vou viver sem o meu pé?

Isto, deve ser fantasia. Por favor acorda-me, porque nada disto deve ser real. Obriga-me a acordar, é uma ordem!!

E quando lerás isto? Sempre noutro dia, a outra hora, em que a disposição já é outra, e o entendimento diferente. E as palavras já não têm o mesmo peso.

Adeus pássaro Azul.

Será que tenho direito de usar o termo Meu? Meu Pássaro Azul?Meu amigo, meu Eu. Acho que estou a falar para mim….

Porque, só a ti te digo isto? e te abro a minha alma? e deixo o meu cofre aberto, vagueio pela casa e já nem o fecho?

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Todos os homens são maricas quando estão com gripe…

Outubro 27, 2006

Pachos na testa, terço na mão

Uma botija, chá de limão

Zaragatoas, vinho com mel

Três aspirinas, creme na pele

Grito de medo, chamo a mulher

Ai Lurdes, Lurdes, que vou morrer

Mede-me a febre, olha-me a goela

Cala os miúdos, fecha a janela

Não quero canja, nem a salada

Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada

Se tu sonhasses, como me sinto

Já vejo a morte, nunca te minto

Já vejo o inferno, chamas diabos

Anjos estranhos, cornos e rabos

Vejo os demónios, nas suas danças

Tigres sem listras, bodes de tranças

Choros de coruja, risos de grilo

Ai Lurdes, Lurdes, que foi aquilo!

Não é a chuva, no meu postigo

Ai Lurdes, Lurdes, fica comigo

Não é o vento, a cirandar

Nem são as vozes, que vêm do mar

Não é o pingo de uma torneira

Põe-me a santinha, à cabeceira

Compõe-me a colcha, fala ao prior

Pousa o Jesus, no cobertor

Chama o doutor, passa a chamada

Ai Lurdes, Lurdes, nem dás por nada

Faz-me tisanas, e pão-de-ló

Não te levantes, que fico só

Aqui sozinho a apodrecer

Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.             

António Lobo Antunes (in Letrinhas de Cantigas)

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De Fernando Pessoa….

Outubro 24, 2006

“Chove. Que fiz eu da vida?”

“No tempo em festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

De ser inteligente para entre a família…”

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Creio

Outubro 23, 2006

Creio no Homem todo-poderoso

Inventor da pastilha elástica

Do Prozac, do soutien sem alças

Do colchão de água, do preservativo

Do silicone e do airbag.

Creio na Maria sempre virgem

Hímen reconstruído

Inseminação artificial

Cesariana com epidural

Mãe sem pecado

Virgem e original

Como se nunca fora tocada.

Creio no homem novo

Que nasceu Manel e é Maria

Pénis removido por cirurgia

Sexo novo e funcional

Implante mamário e labial

Tudo no sitio e operacional.

Creio no Homem

Criador de todas as coisas

Das maiores às mais pequenas

Das divinais às obscenas

Porque a todas o homem quer

Hoje e para sempre

Ámen.

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À Espera….

Outubro 21, 2006

E Ele disse que vinha e não apareceu. Não apareceu, pura e simplesmente não apareceu, não disse nada, não quis vir, quis mas desistiu, não teve vontade, teve vontade mas não teve coragem, não veio. E Ela esperou, todo o dia esperou. De manhã esperou com esperança, com um sorriso alegre, saltitava com a certeza da visita, compunha o cabelo, uma visita ao espelho para se certificar do aspecto, olhava para a porta entreaberta, escutava os passos com atenção, as vozes, mais uma visita ao espelho (o cabelo estava bonito!) e chovia e ela impacientava-se e pensava o porquê da demora. Hora do almoço, sem apetite, a ansiedade a atacar, mas a esperança e a certeza ainda firmes, havia de chegar, havia de aparecer, nada de pôr cara triste que os olhos não mentem e perdem o brilho e a boca perde o sorriso e toda a cara cai, fica pesada.A tarde avança, já anoitece cedo mas depois de uma manhã de chuva até abriu o sol, já um sol frio de Inverno, mas trouxe mais luz à tarde. E Ele nada. Passos, começaram a ouvir-se menos, era Sexta-feira o fim-de-semana já se anunciava, todos querem sair à hora ou até mais cedo, como se todos tivessem boas razões para sair, como se fosse impensável não ter necessidade de sair. E a tristeza chegou. Ela já estava escostada à porta, a fazer força para entrar. E tanto pressionou que entrou de rompante, esbaforida, exagerada veio numa dose quase mortal, e sem qualquer problema inundou-A, com o seu visco habitual. Espalhou-se do centro até à extremidade mais pequenina. O coração, esse quase parou e ficou a trabalhar no menor dos limites, a respiração curta, pequena, rápida, os braços ficaram inertes, as pernas moles, os dedos sem reação, o pescoço tombou e a cabeça pesada rolou sobre a mesa de trabalho. Os olhos ficaram parados no tempo, a boca fechada, feia mesmo, a pele baça.Então, Ela deixou-se ficar, como se o Mundo tivesse parado. Ficou em silêncio, ainda deu uma ordem para os olhos se fecharem. Para quê estar de olhos abertos? os olhos eram para Ele, só para Ele.Ela ficou assim até ser noite. A tristeza usurpadora, sentiu-se regalada com tanto espaço e tempo para fazer os seus estragos e ao espreitar a noite sentiu-se capaz e com vontade de se desalojar do corpo dEla, e viscosamente misturou-se com a noite.Ela sentia-se suja, violentada, violada, magoada, mas corajosa juntou os farrapos, colocou a cabeça desconjuntada no pescoço e com uma figurinha anedótica levantou-se, pegou na mala e saiu. Saiu para a noite. Sentiu-lhe o cheiro, com que estava inundada e de forma apática e indiferente deu todos os passos que costumava dar.E o dia passou. E Ela sentiu-se mais velha, ainda mais só. Na verdade, não era uma sensação nova para Ela e com este pensamento resignado, gasto, sujo de tão gasto tentou adormecer.