Não sei se a partir de certa altura as pessoas deixam de esperar seja o que for. Eu deixei. Esperar o quê, aos quarenta e três anos (1)? Pintar a casa, mudar os móveis, o sofá que vi no centro comercial ali, uma mesa de apoio mais moderna? E quanto a mim? Mudar a cor do cabelo, experimentar umas massagens nas coxas, arranjar-me melhor? Para quem? De vez em quando um homem convida-me para almoçar, por alturas da ementa fita-me de olhos pingados, por alturas do café já nem me fita, não torna a convidar-me. Que terei eu de mal? Um casamento falhado, uma relação falhada com um sujeito casado e que se arrastou anos, um defeitozinho num dente da frente que o dentista se propõe consertar por uma fortuna que não tenho e eu vou adiando com o pretexto da falta de tempo para que não suspeite o dinheiro contadinho: uma tarde por mês uma blusa, uma saia, não as que eu gostava, é claro, coisas mais baratas mas enfim, a vida é o que é….Durante um ano joguei nesses concursos que dão dinheiro, fiz cruzes em números, esperancei-me, não ganhei nada. O mais que ganhei até hoje foi um ramo de flores artificiais numa tômbola de província, na terra da minha mãe. De pano e plástico não valiam um chavo. Sinceramente não sei se na minha idade me apetecia um marido, manias, amuos, exigencias, montes de roupa para lavar, passar a ferro, guardar, um pivete a tabaco por todo o lado. Outras mulheres de certeza, mentiras parvas. Coisas fora do sítio, o jornal da véspera no chão.
O sexo nem muito bom, nem muito mau, uns estremeções rápidos e aí estão eles de costas a dormir. O cheiro do suor que me incomoda.
O vizinho do 2º andar, ao cruzarmo-nos na escada, fica a apreciar-me atrás dos óculos que bem o sinto nas minhas costas. Tem 66 anos e no Inverno, com a humidade, usa uma bengalinha. De maneira que, não espero seja o que for. Janto um iogurte e uma maçã. Há sempre uma das tábuas da cama que protesta. Que quer ela? Se calhar o mesmo que eu, que a deixem tranquila. Por sua vontade deitava-me no sofá com uma manta e os pés de fora a constiparem-se. Na cozinha uso chinelos com pompom, por sou sensível nas extremidades e se não tomo cuidado pingo no nariz, aspirinas, essas misérias. Uma embalagem de lenços de papel inteira que me vejo grega para abrir porque o lado pelo qual se levanta o adesivo se encontra sempre do lado contrário àquele em que o procuro. O vizinho do 2º andar concorda comigo, acha que complicam as coisas de propósito.
66 anos, pensando bem não é muito e a bengala pode dar um aspecto distinto. Se mudasse a armação dos óculos e vestisse outro tipo de roupa melhorava imenso. Será que a partir de certa altura deixamos de esperar seja o que for? Será que eu deixei aos 43 anos? Porque não mudar a cor do cabelo, experimentar umas massagens nas coxas, arranjar-me melhor? Porque não convidar o vizinho para jantar cá em casa ensopado de borrego, carne assada, sei lá….não iogurtes e maçãs….
É que às vezes as noites são difíceis, acordo, levanto-me, torno a deitar-me, torno a acordar. Sobra-me uma amiga que nunca vejo, parentes no Norte que nunca vejo também e me mandam salpicão no Natal. Interrogo-me se o salpicão fará mal ao vizinho, se gostará da maneira como arranjei o quarto, se simpatizará com o quadro do naufrágio, um barco à vela contra as rochas e marinheiros a gesticularem.
Comermos salpicão sob as mãos dadas e dali a pouco, como quem não quer a coisa, a minha mão na dele, mais miúda que a minha e um bocadinho humida. De resto, basta olhar o vizinho e percebe-se logo que tem cara de mãos húmidas. Dantes, só de pensar em mãos húmidas virava-se-me o estomâgo do avesso. Agora aguento, um bocadinho agoniada mas aguento.
Chega daqui a meia hora, aposto que com um perfume ou chocolates que lhe desiquilibraram o orçamento. O borrego também me desiquilibrou o orçamento porém, como se desculparia o meu pai, é uma vez na vida e outra na morte. Escutarei com toda a paciência as histórias compridíssimas dele e hei-de interessar-me e fazer perguntas. Sentir-se-á muito o bigode (detesto bigodes), quando ele beija?
(1) Adaptação do texto de António Lobo Antunes